As patologias de fígado em roedores, como acúmulo de lama biliar e colelitíase não são comumente descritas em roedores mantidos como animais de estimação e em animais experimentais, um dos fatores associados é o consumo de uma dieta rica em colesterol (1). O espessamento da bile pode representar uma complicação decorrente de colestase intra-hepática grave, frequentemente associada à colangite ou à lipidose hepática. A formação de cálculos biliares de colesterol ocorre quando a bile se encontra supersaturada por colesterol, promovendo a nucleação de cristais de colesterol monoidratado, associada à incapacidade da vesícula biliar de realizar o esvaziamento completo (2). O Chelidonium majus é uma planta herbácea da família das Papaveráceas, possui raiz avermelhada, contém um suco amarelo viscoso, amargo e cáustico. Por suas características foi designada como remédio para o fígado que lembra as características da bile, principalmente por médicos gregos e Galeno, que usaram nas doenças hepáticas (3). Possui ação dominante na irritação e inflamação digestiva gástrica, intestinal e congestão hepática (3,4). Na Matéria Médica Pura de Hahnemann, encontram-se descritas observações provenientes da experimentação terapêutica que confirmam a ação eletiva dessa substância sobre o fígado, particularmente no que se refere à colestase biliar e ao aumento da produção de indol (5). Uma porquinha da índia (Cavia porcellus), fêmea de 4 anos de idade, foi levada para clínica particular com a queixa de acentuada perda de peso. Animal apresentava-se sarcopenico, com desequilíbrio, principalmente devido a perda de massa muscular em membros pélvicos. Outros sistemas não apresentavam alteração dignas de nota no exame clínico. Foi solicitado ultrassom de abdômen total, hemograma e bioquímicos e foi dado ao animal suporte nutricional com suplemento alimentar específico para herbívoros e vitamina c que não estava sendo suplementado. Nos exames bioquímicos a FA 125UI/L (55-108) e ALT 44UI/L (10-25) estavam alteradas. No ultrassom a vesícula biliar apresentava-se distendida por conteúdo anecogênico (bile) dentro da normalidade e discreta quantidade de conteúdo ecogênico e hiperecogênico em deposição (lama biliar/cristais biliares) (Figura 1) – considerando-se colecistite ou processo crônico. Assim, baseado nos critérios ultrassográficos e nas alterações de parâmetros bioquímicos foi receitado Chelidonium majus na potência 6cH em glóbulos, administrado a cada 12horas, por 30 dias. Após o período de tratamento, o animal apresentava melhora clínica e foram solicitados novos exames de ultrassom de abdômen total e hemograma e bioquímicos. Os novos exames demonstraram uma diminuição da FA 84UI/L (55-108), voltando aos parâmetros normais para a espécie, a enzima ALT 74UI/L (10-25), apresentando um aumento. Em roedores o aumento da enzima ALT também pode estar relacionada a alterações de músculo esquelético, compatível com a piora do quadro muscular da paciente no momento do segundo exame. Entretanto o ultrassom a vesícula biliar apresentava-se com paredes normoespessas, distendidas por conteúdo anecogênico (bile), dentro da normalidade, não havendo a deposição de lama e cristais biliares (Figura 2). Considerando a evolução positiva clínica e a normalidade da vesícula biliar após o tratamento com Chelidonium majus, os resultados sugerem que a homeopatia pode ser uma opção de tratamento em roedores.
Autores
Bruna Silvatti Freitas Silva Vieira, Cideli de Paula Coelho
Material na íntegra: TRATAMENTO DE LAMA BILIAR COM CHELIDONIUM MAJUS EM PORQUINHO DA ÍNDIA (CAVIA PORCELLUS).docx