A hipersensibilidade alimentar é uma reação orgânica adversa aos alimentos que envolve uma resposta alérgica a alguns componentes. A fisiopatologia exata da hipersensibilidade alimentar ainda não está totalmente esclarecida; acredita-se que haja envolvimento das reações de hipersensibilidade dos tipos I, III e IV, sendo que as habituais fontes proteicas e de carboidratos encontradas na alimentação constituem os principais agentes alergênicos (1). Em cães, os alimentos mais associados às alergias alimentares incluem carne bovina, carne de frango, ovos, trigo e produtos lácteos. A hipersensibilidade alimentar pode provocar manifestações clínicas como alterações cutâneas e no trato gastrointestinal, prurido, que frequentemente não apresenta resposta satisfatória ao tratamento com corticosteroides (2). Em decorrência do processo inflamatório, podem ocorrer distúrbios como má absorção intestinal e refluxo (3). A homeopatia entra como aliada para a reabilitação e dessensibilização do organismo. Relata-se o caso de uma cadela, fêmea, 5 anos com histórico de desconforto gástrico, êmese e diarreia mucosanguinolenta há mais de 1 ano, refratária a dietas e tratamentos convencionais. Vivendo em ambiente domiciliar, sob os cuidados de sua tutora, a paciente recebe acompanhamento veterinário e chegou a introduzir diversas dietas comerciais e medicamentos alopáticos. Embora alguns episódios fossem controlados temporariamente, os sintomas retornavam, demonstrando refratariedade às medidas adotadas. Durante a avaliação clínica, foi solicitado um painel alérgico com dosagem de IgE específica que confirmou hipersensibilidade alimentar a diversos alimentos e ingredientes comuns. A partir desse diagnóstico, optou-se por instituir um tratamento homeopático, visando modular a resposta imunológica e reduzir a intensidade dos sintomas. O protocolo incluiu Phosphorus 200CH uma vez ao dia, como simillimum diante do perfil emocional da paciente, caracterizado por docilidade, afetividade e intensa necessidade de companhia e contato humano. No estado de saúde, a paciente apresenta-se expansiva, alegre, comunicativa e agitada, enquanto, nos períodos de doença, ocorre queda abrupta do ânimo, com tristeza e apatia, refletindo a marcada polaridade emocional típica de Phosphorus. Há hipersensibilidade emocional, impressionabilidade e grande empatia, reagindo intensamente aos estímulos externos e ao ambiente. Para manejo dos episódios agudos, foram prescritos Arsenicum lbum 30CH, Nux vômica, Ipeca, Podophyllum 12CH, administrados três vezes ao dia. O tratamento homeopático tinha como objetivo tanto controlar os sintomas quanto favorecer a progressiva dessensibilização alimentar. Após o início do tratamento, a paciente apresentou uma evolução clínica notável: permaneceu mais de 70 dias sem episódios de diarreia ou êmese, demonstrando estabilidade gastrointestinal. A partir dessa melhora, iniciou-se a reintrodução gradual de alimentos anteriormente intolerados. O filé de tilápia foi reintroduzido com sucesso, sem intercorrências, enquanto carne bovina e frango foram mantidos em reintrodução progressiva. A tutora relatou melhora significativa no bem-estar da cadela, com maior disposição e ausência de desconforto digestivo. A discussão aponta que em casos de hipersensibilidade alimentar a homeopatia pode atuar proporcionando controle sintomático satisfatório. O caso descrito demonstra que, quando aplicada levando em conta características do paciente, a homeopatia pode favorecer a estabilização do quadro, ampliando a segurança e qualidade de vida.
Autores
Luisa Zappa
Material na íntegra: EVOLUÇÃO CLÍNICA DE CÃO COM HIPERSENSIBILIDADE ALIMENTAR SUBMETIDO A TERAPIA HOMEOPÁTICA.docx